A assinatura do acordo entre o Mercosul e a União Europeia, prevista para a próxima semana em Assunção, no Paraguai, encerra uma negociação que atravessou governos, crises globais e mudanças profundas na ordem econômica internacional. Mais do que um acordo comercial, trata-se de uma decisão estratégica sobre o lugar do Brasil no mundo em um momento de fragmentação geopolítica, disputas por mercados e reorganização das cadeias globais de valor.

Embora o acordo ainda precise ser ratificado pelos parlamentos nacionais e pelo Parlamento Europeu, a assinatura tem peso político e simbólico relevante. Ela sinaliza uma reaproximação entre dois blocos que compartilham valores institucionais, tradição comercial e interesse mútuo em previsibilidade econômica.

Escala e acesso: o tamanho do mercado em jogo

Para o Brasil, o acordo representa acesso preferencial a um dos mercados mais sofisticados do planeta, composto por 27 países da União Europeia. Somado ao próprio Mercosul, o acordo conecta economias que, juntas, alcançam cerca de 780 milhões de consumidores, sendo aproximadamente 450 milhões apenas no bloco europeu.

Poucos acordos comerciais no mundo oferecem essa combinação de escala, poder aquisitivo, estabilidade institucional e demanda por produtos de maior valor agregado. Para as empresas brasileiras, isso significa não apenas ampliar volumes de exportação, mas reduzir riscos excessivos de concentração em poucos mercados.

Exportar mais — e melhor

O setor agroindustrial brasileiro tende a ser um dos principais beneficiados. A redução de tarifas e a ampliação de cotas para produtos como carnes, açúcar, etanol, sucos e café abrem espaço para crescimento com maior previsibilidade e segurança jurídica, fundamentais para decisões de investimento de longo prazo.

Na indústria, o acordo cria uma oportunidade mais sofisticada: ampliar a presença brasileira em segmentos de maior valor agregado, como autopeças, máquinas e equipamentos, produtos químicos, papel e celulose e soluções ligadas à transição energética. Para isso, será necessário cumprir exigências técnicas, regras de origem e padrões de qualidade rigorosos — um desafio que, quando superado, eleva o nível competitivo das empresas também em outros mercados globais.

Há ainda um efeito menos visível, mas estratégico: a ampliação do comércio de serviços. Engenharia, tecnologia, software, manutenção industrial, logística e serviços especializados tendem a se beneficiar da harmonização regulatória e da facilitação de comércio previstas no acordo.

Importações como instrumento de produtividade

Do lado das importações, é esperado um aumento na entrada de máquinas, equipamentos industriais, produtos químicos, fármacos e bens de capital europeus, além de alimentos e bebidas tradicionais do bloco.

Esse movimento não deve ser visto como ameaça automática à indústria nacional. Ao contrário, pode funcionar como um vetor de modernização produtiva, permitindo acesso a tecnologias mais avançadas, maior eficiência energética e redução de custos. O desafio está em transformar importações mais qualificadas em ganhos reais de produtividade e competitividade exportadora.

Investimentos e integração produtiva

Além do comércio, o acordo envia um sinal claro ao investidor internacional: previsibilidade institucional e compromisso com regras. Isso tende a estimular investimentos diretos europeus no Brasil, especialmente em manufatura, agroindústria, energia renovável, infraestrutura, logística e inovação.

Em um cenário de reconfiguração das cadeias globais e busca por diversificação de riscos geopolíticos, o Brasil pode se posicionar como plataforma produtiva e exportadora relevante, desde que consiga alinhar ambiente regulatório, infraestrutura e estratégia industrial.

Os desafios que acompanham a oportunidade

O acordo também impõe desafios importantes. Setores industriais menos competitivos enfrentarão maior concorrência, exigindo avanços consistentes na agenda de produtividade, redução do custo Brasil, melhoria logística e qualificação da mão de obra.

A agenda ambiental é outro ponto central. Requisitos de rastreabilidade, sustentabilidade e conformidade deixam de ser diferenciais e passam a ser pré-condições de acesso ao mercado europeu. Para o Brasil, isso significa investir em governança, controle e transparência nas cadeias produtivas — um esforço necessário para manter competitividade global.

Além disso, o processo de ratificação na Europa pode ser longo e sujeito a pressões políticas internas, especialmente do setor agrícola. Mecanismos de salvaguarda e instrumentos de proteção podem surgir ao longo do tempo, exigindo atenção permanente das empresas exportadoras.

O tempo da adaptação começa agora

Mais do que celebrar a assinatura, este é o momento de preparação. Empresas brasileiras precisam mapear produtos com maior potencial, avaliar impactos tarifários, compreender regras de origem, investir em rastreabilidade e estruturar estratégias claras de acesso ao mercado europeu.

Também é hora de buscar parceiros locais, distribuidores, joint ventures e oportunidades de investimento cruzado. O acordo não é apenas sobre vender mais, mas sobre se integrar a cadeias globais de valor mais sofisticadas.

Uma escolha de longo prazo

O acordo Mercosul–União Europeia não garante sucesso automático, nem resolve, por si só, os desafios estruturais da economia brasileira. Mas redefine o tabuleiro. Para o Brasil, trata-se menos de comércio exterior e mais de uma escolha estratégica sobre competitividade, investimento e inserção internacional.

 

(*)Henry Uliano Quaresma é CEO da Brasil Business Partners e membro de conselhos de empresas e entidades empresariais. Atuou como Diretor Executivo da Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina (FIESC), onde participou ou coordenou mais de 90 missões empresariais internacionais em mais de 50 países, fortalecendo a inserção global da indústria.
Sua trajetória combina experiência no setor privado, no governo e no meio acadêmico, tendo atuado como professor universitário, executivo industrial e gestor público. É engenheiro, com MBA em Administração Global pela Universidade Independente de Lisboa, especialização em Marketing pela FGV e formação executiva em Estratégia e Gestão pela Wharton School (EUA) e pela INSEAD (França).
Autor de artigos e livros de referência, destaca-se a obra “O Fator China: Oportunidades e Desafios” (2024), amplamente reconhecida no meio empresarial, além dos e-books “Internacionalização Acelerada” (2025) e “Inovação na China” (2025).
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