
O "Day After" das Tarifas dos EUA: Impactos nas exportações brasileiras e as estratégias para enfrentar o novo cenário comercial, por Henry Uliano Quaresma

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Henry Uliano Quaresma (Fotos: Divulgação)
Confira a avaliação do consultor de empresas e CEO da Brasil Business Partners, Henry Uliano Quaresma, sobre os desdobramentos das tarifas impostas pelo governo dos Estados Unidos e que entram em vigor nesta sexta-feira, 1º de agosto
Tarifas de 50% e o Risco Real
A partir de 1º de agosto, entra em vigor nos Estados Unidos um pacote tarifário de até 50% sobre produtos considerados estratégicos, como aço, alumínio, fertilizantes, autopeças e manufaturas industriais. A medida faz parte de uma nova fase do protecionismo econômico norte-americano e tende a provocar impactos diretos e indiretos sobre o comércio internacional.
Estados com cadeias industriais mais expostas ao mercado dos EUA precisam se preparar para um cenário de reavaliação comercial e risco à competitividade.
Estados Mais Expostos: A Geografia da Vulnerabilidade
Em 2024, os estados brasileiros com maior proporção de exportações direcionadas aos Estados Unidos foram: Ceará (44,9%), Espírito Santo (28,6%), Paraíba (21,6%), além de operações não identificadas por estado (21,2%), São Paulo (19,0%), Sergipe (17,1%), Rio de Janeiro (16,2%), Santa Catarina (14,9%), Maranhão (13,4%), Minas Gerais (11,0%), Amazonas (10,3%), Amapá (10,0%), Pernambuco (9,4%), Alagoas (8,8%), Rio Grande do Sul (8,4%), Bahia (7,4%), Paraná (6,8%), Mato Grosso do Sul (6,7%), Rio Grande do Norte (5,9%), Rondônia (4,7%), Pará (3,6%), Goiás (3,3%), Piauí (3,0%), Tocantins (2,9%), Distrito Federal (2,6%), Mato Grosso (1,5%) e Roraima (0,3%).
Esses percentuais evidenciam não apenas o volume exportado, mas também o grau de dependência relativa de cada estado em relação ao mercado norte-americano — um indicador essencial para entender sua vulnerabilidade diante das novas barreiras tarifárias.
Santa Catarina: Exposição Industrial Sensível
Santa Catarina figura entre os estados com dependência relativa das exportações para os Estados Unidos (14,9%). Setores como madeira e móveis, metal-mecânico e eletroeletrônico estão entre os mais expostos, exigindo resposta coordenada em nível estadual e regional.
Estratégias Sugeridas: O Que Fazer no “Dia Seguinte”
1. Diversificação Geográfica de Mercados
É essencial reposicionar as exportações, buscando destinos alternativos como América Latina, África, Oriente Médio e Sudeste Asiático. Também é importante ampliar a presença em feiras internacionais e plataformas digitais de comércio exterior.
Setores e Sugestões de Novos Destinos Potenciais
Petróleo Bruto - Com os EUA restringindo a compra, países como Índia, China e Singapura surgem como alternativas consistentes. São grandes refinadores e compradores globais com infraestrutura pronta para absorver volumes expressivos.
Celulose - A China já é um dos principais compradores de celulose brasileira e tem capacidade de ampliação. Itália e Turquia, com indústrias de papel e embalagens em expansão, também devem ser priorizadas.
Ferro-ligas e Produtos Siderúrgicos - O Brasil pode ampliar sua presença na Alemanha, Turquia, Coreia do Sul e África do Sul, que mantêm elevada demanda por insumos para a indústria metalúrgica e construção civil.
Produtos Químicos e Orgânicos - Índia, México e Indonésia despontam como destinos estratégicos para produtos químicos, especialmente com o crescimento de suas indústrias farmacêuticas e agrícolas.
Carnes (bovina e de frango) - Mercados com consumo crescente e exigências já atendidas pelo Brasil, como Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes, China, Vietnã e Indonésia, podem absorver parte relevante da carne brasileira redirecionada.
Alumínio e Aço - Japão, Coreia do Sul, Chile, Colômbia e Egito oferecem oportunidades no setor de construção, infraestrutura e manufatura.
Máquinas e Equipamentos Elétricos - México, Vietnã e Emirados Árabes estão investindo fortemente em reindustrialização e grandes obras de infraestrutura. Esses países podem substituir os EUA como destino de partes e componentes industriais brasileiros.
Aeronaves e Componentes - Cingapura, França e Emirados Árabes concentram polos de manutenção, logística e operações aéreas que demandam equipamentos e peças de aviação.
Café - Alemanha, Bélgica e Japão mantêm consumo elevado e constante. Apostar em nichos como cafés especiais, orgânicos e rastreáveis pode ampliar ainda mais a participação brasileira nesses mercados.
Calçados, Couro e Vestuário - Itália, França e Emirados Árabes seguem como importantes compradores de couro e calçados brasileiros, com apelo de moda e qualidade reconhecida.
Móveis e Madeira - Panamá, Chile, África do Sul e países da América Central podem se beneficiar da oferta brasileira com prazos competitivos e produtos sustentáveis.
2. Liberação de Créditos à Exportação
Programas de crédito voltados a exportadores afetados devem ser priorizados, com condições facilitadas para capital de giro, inovação e adequação de produtos a novos mercados. A atuação coordenada de bancos públicos e agências estaduais de fomento será decisiva.
3. Apoio Regionalizado às Indústrias Atingidas
Medidas como incentivos fiscais e ajustes regulatórios temporários devem ser direcionadas a setores estratégicos com maior exposição tarifária. Além disso, é fundamental fomentar a modernização industrial e o redesenho das cadeias produtivas.
4. Diplomacia Comercial Federativa
É preciso fortalecer a articulação entre estados e o governo federal na construção de uma agenda técnica junto aos Estados Unidos e organismos multilaterais. Estudos de impacto por estado e setor devem embasar a defesa dos interesses brasileiros em fóruns internacionais.
5. Reforço Logístico e Infraestrutura de Exportação
Investimentos em infraestrutura logística e em Zonas de Processamento de Exportação (ZPEs) devem ser acelerados. Portos e rotas menos congestionadas precisam ser valorizados como alternativas viáveis para o escoamento de produtos.
Riscos Reais, Respostas Estratégicas
Com a entrada em vigor das tarifas a partir de 1º de agosto, o Brasil enfrenta um cenário que exige agilidade, planejamento e articulação. Estados com elevada exposição ao mercado norte-americano devem liderar o esforço de adaptação, impulsionando o redesenho de cadeias produtivas e a diversificação dos destinos comerciais.
Transformar uma crise em oportunidade depende de uma ação coordenada entre poder público, setor privado e instituições financeiras. O futuro do comércio exterior brasileiro será definido pela capacidade de adaptação, inteligência estratégica e ousadia para construir novas rotas no comércio global.
(*)Henry Uliano Quaresma é CEO da Brasil Business Partners e membro de conselhos de empresas e entidades empresariais. Foi Diretor Executivo na Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina (FIESC), onde participou ou coordenou mais de 90 missões empresariais internacionais em mais de 50 países. Atuou profissionalmente em universidades como professor, em indústrias e governo. É engenheiro, possui MBA em Administração Global pela Universidade Independente de Lisboa, especialização em Marketing pela FGV e concluiu Programas Executivos em Estratégia e Gestão pela Wharton School (EUA) e pela INSEAD (França). É autor de artigos e livros, destacando-se o livro “O Fator China: Oportunidades e Desafios” (2024), obra consolidada como referência na área empresarial, além dos e-books Internacionalização Acelerada (2025) e Inovação na China (2025).
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